Friday, August 29, 2008

FERNANDO PESSOA, O AFRICANO



«Estranho só o raro, e raros são os mortos, que um morto fale, aos medíocres soará impossível, mas eu caminhei sobre as águas do Império, vi Portugal de longe, primeiro num sonho, uma memória de criança magoada, uma saudade que revelava o meu nome. Eu caminhei sobre as águas e voltei, a uma Lisboa na barriga da névoa, cada vez mais próxima, em declínio, inerme no tempo, em nada assemelhada à talha onírica, esquecida de si, cheia de sonâmbulos, de fala-sós, de intelectuais de pacotilha e poetas preocupados com sentimentos. As ruas, um lixo, a universidade, um tédio, as mulheres, uma anedota, os amigos, inconsequentes.
Vivo na fronteira dos dias sem Portugueses, seremos um féretro, os homens do Império, sem o «fardo do homem branco» que tanto abate os Ingleses, o nosso fardo é o fantasma de tudo incendiado na alma, o fardo do que poderia ter sido e não pôde ser.
Na minha vida agiganta-se o último lamento do que o Império foi, e o pórtico do que o Império será, não este, podre já nos livros de História, mas aquele que alucina a alma no dentro tormentoso do Oceano, com as vagas altas em redor, num país de pinhais sem chão na palavra. É das águas, foi das águas, é das águas e será, porque este Leviatã informe que me assombra é o porvir, para onde a ruína do que pôde ser, o que ergueu do pó o negro e o índio, o mouro e o godo, mudará a uma pele de prata além da alquimia, azul que não há no céu, uma vasta terra indescoberta.
Não terá um sinal nos mapas, uma rota, da luneta no convés não se verá, e é, é como o que agita a espuma nas praias com um gemido cavo do abismo do mar, debaixo de todos os luares, as serras invencidas e as minhas mãos trémulas que sabem já o que nem sonho e serei, fundamente serei, porque eu vim sobre as águas e vi o continente último, feito da carne do vento e do espírito, com um coração de escravo aberto em poços inesgotáveis de esperança.
Portugal não é o país que sou, é o Império que fui. O que serei não mancha ainda as páginas dos atlas, sei que terá palmas e dança, a mirra e o vinho, a cânfora e o vinagre, a Índia, a África, o Brasil, o norte, o sul, o leste e o oeste onde a minha alma de africano encontrará descanso um dia.


Fernando Pessoa,
Lisboa, 29 de Agosto de 2008



Em meu nome e do Íbis, que por vezes fala comigo, dedico estas palavras aos Amigos e Amigas do Movimento Internacional Lusófono.

Lord of Erewhon




Publicado no blogue Nova Águia .

40 Comments:

Blogger biazinha said...

Só conheço algumas vertentes de Pessoa, não falo de heterônimos, mas de temas. Conheço pouco o seu lado político. Como era de se esperar, excelente! Até que se prove o contrário, ao meu ver, Fernando Pessoa é o cara!

Beijinho.

9:55 PM  
Blogger Oliver Pickwick said...

Apesar de um pouco mais velho que a Biazinha aí em cima, eu suponho, também conheço pouco do Fernando Pessoa fora da sua vertente literária. Contudo, este texto já conhecia. E que texto! Não sei se gosto mais da escrita ou do conteúdo.
Um abraço!

3:25 AM  
Blogger biazinha said...

Bom dia!Bebézão, te adoro!(k)
Esse nosso mano Lord é que é o cara!

10:53 AM  
Blogger She said...

Uma vez que não é provável férias do túmulo e que Pessoa passe o Agosto em Lisboa, és o autor do texto, apesar do mesmo não ser teu, na substância e no estilo. O Pierre Menard tinha razão.

(A continuar o elogio) és um merdoso, passou o Verão e não vieste ver-me.
Beijo.

11:29 AM  
Blogger Mac Adame said...

Pessoa, mesmo em prosa, o que escrevia era poesia.

6:06 PM  
Blogger Klatuu o embuçado said...

___________NOTA____________

SE REPARAREM: POR BAIXO DA ASSINATURA «Fernando Pessoa» APARECE A DATA «Lisboa, 29 de Agosto de 2008» - ISSO NÃO VOS DIZ NADA??

7:58 PM  
Blogger biazinha said...

JAJAJAJAJAJAJA!
Ele escreveu esse poema numa sessão de Kardecismo e o Lord foi o "cavalo " dele.
LOLADA!

9:20 PM  
Blogger Nitrox said...

Estava a Ler e não conseguia localizar o texto em Pessoa, no entanto não achei estranho que pudesse ser da sua pena, afinal não conheço assim tão bem a obra dele.

Mas ao longo da leitura uma dúvida se foi instalando, será Pessoa ou será Niktos?

Por fim claro que é Pessoa!

Olha 2008? Será gralha?

Afinal não. Era mesmo Klatuu Niktus!

Adorei o texto e os volte-faces da autoria.

Fica Bem!

10:20 PM  
Blogger andorinha said...

Excelente texto, Lord.

Obrigada, amigo.
Beijo*

P.S. Quanto à Nota que deixas, é o que a She já disse, não? És tu o autor do texto.
Não somos assim tão desprovidos de inteligência:)))))

10:26 PM  
Blogger heretico said...

sonho. e pela miragem vamos...

como "coração de escravo aberto em poços inesgotáveis de esperança!..."

e a minha alma "aqui e agora", mais que africana é sul-americana... rss

"soberano" texto.

abraços

9:19 PM  
Blogger Svetlana said...

O grande Fernado sempre em grande! Não conhecia estetexto dele. Grande falha a minha!

11:18 AM  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Nem poderia conhecer, não é Fernando Pessoa o autor, sou eu

Vá aí ao lado direito do blogue, por baixo do contador, e clique em «Need a Coffee?».

P. S. Acredita que Pessoa ainda está vivo? Veja a data do texto.

11:22 AM  
Blogger Paradoxos said...

eu pessoalmente não conhecia este texto, ja valeu passar por aqui amigo!! um forte abraço em Pessoa!

;-)

1:49 PM  
Blogger Blood Tears said...

Realmente, para quem já foi dono de metade do mundo, Portugal estás mesmo....... (sem palavras)
O nosso Império..... Nós próprios.... revemo-nos no passado, no presente, ou sonhamos com o futuro?
Eu sou o mar e o porvir. A imensidão e as tempestades, o luar e as serras....
Adorei o texto, proporcionou-me uma boa reflexão... :)

Blood Kisses

3:55 PM  
Blogger Crisfonseca said...

Belíssimo texto, este eu não conhecia. Belíssimo.
Beijos,
Cris

11:39 PM  
Blogger kami said...

Belissimo texto...apesar da confusão de alguns em achar que se tratava de Pessoa...andas a escrever cada vez melhor...já te confundem até com grandes poetas!kkk
Mais voltando ao texto...acho admiravel esse patriotismo que tem, aqui do outro lado do atlantico esse sentimento já anda meio esquecido!
Bjusssssss

1:21 AM  
Blogger ηatalie αfonseca said...

Fernando Pessoa....a quem eu tenho tanto respeito e paixão pelas palavras que ele foi deixando ... :)

11:32 AM  
Blogger biazinha said...

Maninho,
Se está havendo tanta confusão por parte das pessoas quanto à autoria do texto o erro não está nelas...
Bão dia!:)

Beijinho.

11:48 AM  
Blogger Klatuu o embuçado said...

ESTE TEXTO ESTÁ A REVELAR UMA EVIDÊNCIA INTERESSANTE: NINGUÉM LÊ OS POSTS! LOL!!!

11:51 AM  
Blogger biazinha said...

LOLADA!
Lêem sim...cruel!(666)

12:08 PM  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Tu não conhece a expressão, bem portuguesa, «pica miolos»?... Pois bem, essa é minha raça! JAJAJAJAJA!!!

Bom dia, minha casquinha de coco... aqui é já hora do almoço... Quando vou poder te pagar todo o gelado desse mundo? O mundo é cruel: fez oceanos! :)=

12:39 PM  
Blogger biazinha said...

Não, eu não conheço essa expressão, mas adoooorei! JAJAJAJAJAJAJAJAJA!

12:48 PM  
Blogger Marcia Barbieri said...

Pois é hein Klatuu?! Baixou então o exu Pessoa em ti? Seria vc mais uma das facetas, talvez a mais negra, do poeta, esse médium maluco? Ou todas as almas do mundo estariam pairando acima de nossas cabeças,no éter e todos nós somos só mais uma alminha parte da grande alma?
Bom texto, retoma o mito do Sebastianismo e revisita um puta poeta!!!
Posso parecer meio estranho nos comentários, mas entendi o que vc quis dizer, é que sou confuso às vezes.
Obrigado pelo comentário na NA e por sempre consertar as legendas das minhas imagens, sempre sou atrapalhado com essas coisas,mas vou me esforçar para melhorar.

E a Bia é mesmo o futuro dos nossos países e do nosso idioma.

Abração,

Daniel.

12:58 PM  
Blogger pianistaboxeador21 said...

O comentário aí de cima é meu é que sou casado com a Márcia e estamos sempre juntos.

Daniel Lopes

7:28 PM  
Blogger MARTHA THORMAN VON MADERS said...

Pessoa, é o maior dos maiores.O texto não conhecia, você é outro poeta?
E os poetas não deveriam encantar com os olhos, profundamente?
falar de sonhos?
dos prazeres?
dos segredos? beijos!

3:48 AM  
Blogger Frankie said...

Quem disse que ele não está vivo, homem?!
Eu vi-o quinta feira; e sentei-me a falar com ele e a bebereicar um café na baixa. (Não que ele me tenha falado muito -suponho que seja uma condição dos génios quando convivem com "seres inferiores"- mas garanto-te que me ouviu atentamente e até esboçou alguns sorrisos) ;)

Beijo*

12:06 PM  
Blogger Betty Blue said...

Para quem nao le os Posts e as várias notas e comentários já aqui feitos : Fernando Pessoa é como o Elvis, está vivo e a viver numa ilha paradisiaca, onde algures apanha banhos de sol acompanhado de duas playmates do melhor ! LOL !

Amigo Klatuu, é cada vez mais dificil manter-me actualizada contigo, escreves muito e tao bem que me sinto pecadora de nao vir cá mais vezes, vou tentar redimir-me ..
Daí talvez nao, o Inferno é mais apelativo ;)
Tinha saudades de te ler, estes minutos no teu blog merecem bem o esforço de nao ir a outros :)

*

4:03 PM  
Blogger Vicious Mistress said...

Bom post ;)

Está tudo bem por ai?
Tive ausente uns tempos :/ enfim!

Beijinhos!

8:22 PM  
Blogger yulunga said...

Muito bom!
Mais um excelente escritor perdido aqui pelas "netes".
Era muito bem feito que por causa deste texto fosses candidato ao Prémio Pessoa.

6:19 PM  
Blogger Bruno Moutinho said...

Fiquei com vontade de ler Pessoa. Talvez poesias empoeiradas na estante.

Será que é a loucura que cria os génios?

Boa semana :)

5:56 AM  
Blogger Lux Caldron said...

Um texto que não ficava nada deslocado em Pessoa. Só alguém com muito talento poderia escrever um texto que não sendo de um génio lhe encaixa tão bem...

E numa altura que tanto se falou de "patriotismo trans-atlântico", vem mesmo a calhar.

Abraço
Viva El Rey
Viva Portugal


PS:Frankie... Eu por acaso também estive com ele no outro dia, mas achei-o com má cara... Está um bocado negro e mal se mexeu... Vê-lá tu que um pombo lhe cagou no ombro e ele nem se limpou... Não estará a chocar alguma doença?

5:08 PM  
Blogger biazinha said...

Painho:
Amo tu!


Padrão-Fernando Pessoa




Padrão
Caetano Veloso
Composição: Fernando Pessoa

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

2:05 AM  
Blogger biazinha said...

Fofura:
Fiz o link errado:
Padrão-FernandoPessoa




Padrão
Caetano Veloso
Composição: Fernando Pessoa

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

2:09 AM  
Blogger biazinha said...

Mais um MP3:
PODRES PODERES

Podres Poderes
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...

Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...

Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...

Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...

Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...

Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!

Beijinho.

2:53 AM  
Blogger Frankie said...

AHAHAHAHAH, Lux!

Pah, não sei! Também o achei um bocadinho apático mas, sabes como é: o homem já tem 120 anos! Para essa idade muito bem está ele, não achaste?! :P

9:00 AM  
Blogger Lux Caldron said...

Talvez Frankie... Talvez...

Mas mesmo assim... Olha que lhe ofereci um fino e ele o deixou morrer no copo... que desperdício...

E aquela cor... será que está a sofrer de alguma mutação genética?

2:54 PM  
Blogger Frankie said...

Não sei; se calhar. Tenho que lhe pedir uma amostra para estudar isso.
Pelo menos convenhamos que, em termos de cor, teve bom gosto: o albisimo já é raro mas, uma versão equivalente em negrume...ISSO é que eu ainda não conhecia! ;)

3:52 PM  
Blogger Paulo Sempre said...

Fernando Pessoa....
Abraço
http://br.youtube.com/watch?v=ZG94sdprK_s

12:54 AM  
Blogger Vertigo said...

Ele é O poeta*

4:37 PM  
Blogger jawaa said...

Antes de mais, obrigada, não tinha lido no NA.
Depois, não vou dizer-te nada que não saibas já, tu és brilhante, sem qualquer exagero. És de um romantismo, de uma exuberância, és tão poderoso na escrita que não conheço actualmente nada parecido. Quem sou eu para falar assim, mas tenho de repetir o que sinto, acho que já te disse antes quanto admiro os teus escritos- mais ainda do que desgosto da tua linguagem nortenha (sentido pejorativo, sim!)
Eu só conheço um livro teu, nunca publicaste poesia?
Uma vénia de olhos no chão, milord.

10:18 PM  

Post a Comment

<< Home