SUDÁRIO, ESCUDO VERMELHO E ESPADA
.Dedicado ao 1º Sargento CMD Roma Pereira, morto no Afeganistão

A morte, a de sempre, real, a que uiva
Desde o início dos tempos, de luvas negras,
A que não se mostra na TV, entre a sopa,
Os talheres sem fio, as toalhas sujas, os rostos
Zombificados da família dopada.
A morte, ceifeira muda que estende a mão
Aos mortos – valquíria antiga, valente e pura –
Para longe da miséria dos vivos,
Nas suas tocas, tronos, como vermes,
Ou pardas toupeiras cegas, ávidas, à procura
Da sua ração de gozo no lixo.
Estes, os guerreiros sem nome nos livros,
Nas conversas de café e de bordel,
Que são antes os primeiros – os olhos são altos –
A correr para as muralhas da cidade,
Tijolos de carne e amor, estandartes da honra,
Lanças e clarins, ao sol, à geada,
Defendem as fronteiras do Ocidente, protegem-nos
Nas Termópilas ainda, em Aljubarrota,
Com a memória dos filhos no coração sangrante,
A terra pátria guardada nas mãos.
Não leram Heraclito e são o garante da lei,
As páginas de sangue em que duramos e somos.
Previamente publicado no blogue Nova Águia .
_Fotos por cortesia de Amigos
A morte, a de sempre, real, a que uiva
Desde o início dos tempos, de luvas negras,
A que não se mostra na TV, entre a sopa,
Os talheres sem fio, as toalhas sujas, os rostos
Zombificados da família dopada.
A morte, ceifeira muda que estende a mão
Aos mortos – valquíria antiga, valente e pura –
Para longe da miséria dos vivos,
Nas suas tocas, tronos, como vermes,
Ou pardas toupeiras cegas, ávidas, à procura
Da sua ração de gozo no lixo.
Estes, os guerreiros sem nome nos livros,
Nas conversas de café e de bordel,
Que são antes os primeiros – os olhos são altos –
A correr para as muralhas da cidade,
Tijolos de carne e amor, estandartes da honra,
Lanças e clarins, ao sol, à geada,
Defendem as fronteiras do Ocidente, protegem-nos
Nas Termópilas ainda, em Aljubarrota,
Com a memória dos filhos no coração sangrante,
A terra pátria guardada nas mãos.
Não leram Heraclito e são o garante da lei,
As páginas de sangue em que duramos e somos.
Previamente publicado no blogue Nova Águia .
Labels: POESIA


23 Comments:
Singela homenagem, meu velho! Bem merecida. Este sargento, por certo, morreu sem saber o porquê. Lindo poema. A única dúvida é quanto ao verso: "Defendem as fronteiras do Ocidente, protegem-nos...
Um abraço!
Adorei,uma morte pulsante e viva e patriota. Uma verdadeira Cavalgada das Valquírias.
beijos
Obrigado, Marcia.
Beijinho.
Oliver, acredito que todos os soldados morrem pela pátria; mesmo que isso possa ser um equívoco, e nem sempre consciente, a ideia de pertencer a algo imemorial, colectivo e sagrado é a única companhia de um soldado na morte, mas talvez Deus também morra com muitos.
Quanto ao verso - malgrado todas as hesitações que possa provocar, à medida que lhe formos mudando o contexto, de guerra para guerra - decerto já percebeste que sou um Ocidentalista; o meu Ocidente está entre as margens do Mediterrâneo e depois caminha para o Atlântico: acredito que esta é a civilização mais inclusiva do planeta, a que mais respeita as mulheres e as crianças, os humildes, a diversidade, em todos os aspectos, tal como consignada na Carta dos Direitos Humanos, a mais livre. E talvez seja assim, não apenas porque descende de Roma e de Atenas... mas porque os seus ancestrais mais remotos foram guerreiros guedelhudos sem temor aos deuses e para os quais a pátria era o seu cavalo.
Abraço.
P. S. Mas, sabes, meu caro amigo, no contexto actual do mundo, o que a minha emoção quer, de facto, dizer é isto: não tenho vergonha - nem teria de ter ou de pedir desculpa por isso - de ser branco e Português e Europeu.
O sofrimento e a dor dessa gente não saem nos jornais. São heróis anônimos que a História não particulariza. Sabe-se do todo e não de parte por parte do que se passou por esses corações e cabeças.
Sem dúvida escreves bem, e tornas-te melhor quando és gentil com as pessoas que há muito te admiram. As pessoas se sentem atendidas e não dói nem um tiquinho pra tu.
Beijos.
palavras duras para uma dura realidade
linda homenagem
Comovente e merecida homenagem, extensível a todos aqueles que caem no campo de batalha ao serviço da Pátria.
Os guerreiros anónimos sem nome nos livros merecem toda a nossa admiração e respeito.
"...a pena dos poetas nunca poderá rivalizar com a espada e o escudo que segurou com honra até ao instante final!"
Rivalizar não, mas ajudar a imortalizar, sim.
A pena é também uma arma.
Beijos, amigo.
Lembras-te sempre das coisas importantes.
A história é feita com gente anónima, mas sem eles, não seríamos nunca nem nada....
Blood Kisses
Sou uma mocinha desblogada, mas ainda te amo e não vais te livrar de mim tão fácil....:)
Beijinhos, lindinho da Bia.
E eu, meu doce. Lamento que tenha apagado seu blogue, e pelos motivos que apagou, mas deixa que tem mais mar que marinheiro... e muito filho da puta que eu ainda vou fazer arrepender de ter nascido.
Minha casquinha de coco... :)
E eu mais uma vez renovo o comentário que coloquei na Nova Águia. De facto é com muita emoção que leio estas palavras pois apesar de nunca ter conhecido Roma Pereira ele era meu irmão Comando.
Sem palavras (dizer o quê?), e deixando apenas um abraço.
Hey, fofura do coração da maninha...saudades!
Cadê o novo post? :D
Beijinho.
Bela homenagem.
Por isso não encontrava o blogue...tentava entrar e dava sempre erro...é uma pena Bia.
sou "internacionalista", como sabes.
o teu poema é de referencia. gostei, Poeta.
abraços
Aplausos, Klatuu!
A tua poesia é visceral, é a verdadeira dádiva.
Nunca te expliquei porque digo "não gosto da minha poesia". Não é por ser feia, por ser má. Nada disso, por acaso até acho que é bem bonita. Mas é umbiguista...! Traduz-me muito bem a mim.
A tua é absoluta!
Dark kiss
Vim aqui matar um pouco da minha saudade...:)
Beijos.
Sabe, irmão...como não tenho mais blogue, agora vivo a trocar de foto em meu perfil. Acho que vou trocar a música também.
Um dia eu volto, mas pra escrever em outro blogue, e contigo, pois gosto de ver teu machado a brilhar ao meu lado.
Mudando de assunto. Penso que nem a Morgana: acho meus poemas bem bonitinhos, mas na maior parte das vezes são umbiguistas.
Falas de coisas universais, e eu, muito do particular. Ultimamente tenho gostado mais de escrever narrativas, e tenho tentado ir para a esfera do Nonsense, o que tem me rendido inúmeras visitas ao blogue do Oliver.
Um dia, quem sabe, eu os publique, porém, só deito minhas letras ao lado de um machado afiado e de dois caninos longos e sedentos por sangue de cobardolas de merda.
Te amo demais, mais que bombom recheado com licor de cereja da Kopenhagem!
Beijos.
PS: Bão dia!
Ainda estou fulo por ter apagado o blogue, sinto remorso de estar ausente quando mais precisava de mim! Se descubro quem era esse filho da puta o vou amassar de porrada.
Te adoro, minha casquinha de coco.
Parece que um comentário que deixei sobre o fcp nao apareceu ehehehe...
Gostaria de participar no BAR, só que não sei se depois teria vontade em por posts. Como já te disse não gosto de muitas multidões..deve ser uma fobia minha. Por isso prefiro ficar no meu canto:)
Mais um belo poema/análise, Klatuu. No conteúdo e na forma, o seu próprio Sudário. É sempre bom quando as palavras revolvem os assuntos, pressionando nervos diferentes...
Post a Comment
<< Home