ABSINTHE, 5ª DOSE

_Fotograma do filme Batman, Tim Burton, 1989
A memória é um filme. Um arquivo de fotogramas, refeitos numa montagem pessoal, o que lembramos é um arbítrio passional, recordamos mais certas horas que certos anos, mais as imagens que os sons, o gosto, o toque e o odor. Curiosamente o filme da minha memória é deturpado por perfumes. Não recordo o sabor das cubas libres que tinha o hábito de beber há vinte anos – hoje são-me insuportáveis – nem a pele na minha pele das mulheres que amei, nem a música dos dias, mas as imagens evocadas têm sempre um qualquer cheiro peculiar.
Tenho a infelicidade de conhecer gente culta, importunam-me os fins de tarde no café com conversas difíceis, inteligentes, claro, e inúteis. Ontem falava-se da década de 80, até o tema se ter exaurido em despojos singulares: um evento, uma personalidade, um livro; a memória é uma donzela álacre e mentirosa, estávamos três homens e uma mulher em redor de uma mesa com jornais, um cinzeiro, chávenas e copos, estivemos nos mesmos lugares e ninguém os conservou dentro de si de modo igual.
Não se procurava apenas um indício que caracterizasse a época utópica, demandava-se algo ou alguém que a tivesse anunciado e encerrado. A mim assolaram-me uma imagem e um perfume: a primeira mulher por quem me apaixonei a sério, chamava-se Filomena e residia em Odivelas… Sei lá. A minha década ficou em aberto, nem a queda do muro de Berlim nem a chegada da Voyager 2 a Neptuno, nada.
Só hoje me ocorreu um poema, tem a data certa e, estou convicto, fecha com um belo cadeado a minha década de 80:
POEMA
O Professor Agostinho da Silva, opado e coadjuvado
pelo Gato:
_________O Reino do Pai
_________O Reino do Filho
_________O Reino do Espírito Santo…
A Rainha Santa Isabel, descendo em Marvão:
_________Tudo
_________Só
_________Homens.
_________Já cansa a cona, caramba.
Mário Cesariny, Outubro de 1989
Tenho em mim a forte crença de ainda estar vivo. Os pastéis de nata já não são o que eram, nem o sabor do café.
A memória é um filme. Um arquivo de fotogramas, refeitos numa montagem pessoal, o que lembramos é um arbítrio passional, recordamos mais certas horas que certos anos, mais as imagens que os sons, o gosto, o toque e o odor. Curiosamente o filme da minha memória é deturpado por perfumes. Não recordo o sabor das cubas libres que tinha o hábito de beber há vinte anos – hoje são-me insuportáveis – nem a pele na minha pele das mulheres que amei, nem a música dos dias, mas as imagens evocadas têm sempre um qualquer cheiro peculiar.
Tenho a infelicidade de conhecer gente culta, importunam-me os fins de tarde no café com conversas difíceis, inteligentes, claro, e inúteis. Ontem falava-se da década de 80, até o tema se ter exaurido em despojos singulares: um evento, uma personalidade, um livro; a memória é uma donzela álacre e mentirosa, estávamos três homens e uma mulher em redor de uma mesa com jornais, um cinzeiro, chávenas e copos, estivemos nos mesmos lugares e ninguém os conservou dentro de si de modo igual.
Não se procurava apenas um indício que caracterizasse a época utópica, demandava-se algo ou alguém que a tivesse anunciado e encerrado. A mim assolaram-me uma imagem e um perfume: a primeira mulher por quem me apaixonei a sério, chamava-se Filomena e residia em Odivelas… Sei lá. A minha década ficou em aberto, nem a queda do muro de Berlim nem a chegada da Voyager 2 a Neptuno, nada.
Só hoje me ocorreu um poema, tem a data certa e, estou convicto, fecha com um belo cadeado a minha década de 80:
POEMA
O Professor Agostinho da Silva, opado e coadjuvado
pelo Gato:
_________O Reino do Pai
_________O Reino do Filho
_________O Reino do Espírito Santo…
A Rainha Santa Isabel, descendo em Marvão:
_________Tudo
_________Só
_________Homens.
_________Já cansa a cona, caramba.
Mário Cesariny, Outubro de 1989
Tenho em mim a forte crença de ainda estar vivo. Os pastéis de nata já não são o que eram, nem o sabor do café.
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41 Comments:
A memória trás ligações perturbadas, umas conseguem alimentar a Alma outras deterioram cada espaço dela... O Ser fantasma pega aquilo que o faz seduzir os pedaços de si...
P.S: Não é do meu feitio mudar muita a minha opinião. Sou adverso à multidão, admitindo sinceramente que existe qualidade do que se escrever no BAR, mas é em mim que reside a perturbação de escrever no "ruído". Mantenho o que já tinha dito
Nosso passado é a nossa memória.:)
Os anos 80 deram-te cabo foi das papilas gustativas...
;o)
LOL!!!! Também...
Abraço.
É, mas quanto mais passado temos, maior é o labirinto...
Dark kiss, (baby) Bat... :)=
A memória é uma perturbação: confirma o que quereríamos esquecer e apaga o que desejaríamos eterno.
Abraço!
P. S. Tu é que sabes... mas o BAR far-te-ia bem: tem uns shots light-goth... :)
Da década de 80 pouco me lembro...só alguns flashes que de vez em quando me assombram…dez anos num estalar de dedos…sempre na beira do precipício…
Abraço.
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Bom Samhain!
Kisses and kisses.
Esse morcegão da foto tem telemóvel?:)
Espero que não sejam tiram de canhões para o suicidio completo ehehehehhe
"A memória é uma donzela álacre e mentirosa..."
Até posso concordar... e concordo:)
Mas o que seríamos nós sem essa donzela, já pensaste nisso?
Beijinho fofo, fofo:)
P.S. Acordei agora...
Gostou da minha nova template?
Hum...a template da Akasha ficou gira, a minha é que não está como eu quero...tu tinhas que enteder disso...acho que não quero um irmão, quero um gênio.LOL!
Bat Kiss.
heyz lord.. nepia.. n é pra ver os th x: n percebi o sentido do teu coment... sinceramente.. :s
Década de oitenta, ficou muito forte The Wall, no cinema, foi estonteante, perturbador, grande abraço.
P.S Klatuu, favor passar email de Biazinha,enviar para: caminho_1@hotmail.com
Foi uma bela década, de facto, Luciano.
P. S. Darei conhecimento à Bia do seu e-mail.
Foi a década mais frutífera na cultura de meu país em termos culturais, e para mim, a mais intensa.
Beijo grande.
A memória é uma donzela falsa, débil, mentirosa e senil que só se recorda do que lhe convém
A memória é uma bailarina que nos surpreende sempre com a sua dança.... :)
Durante os anos 80 era ainda uma teen, mas guardo muito boas recordaçãoes das aventuras do descobir... :)
Blood Kisses
quantos calendários da memóroa precisamos para não esquecer...
forte abraço
é sempre um prazer renovado reler e passar por esse lugar!
-.-
Hello darkness.
Saudaccoes Klatuu!
Vejo que mantens a mesma ideologia...Great!
Magnifico!!!
Abracos
Paulo "Pexeseco"
"Ride on Men"
Klatuu o Embuçado;
Os anos 80... Esqueci momentos "inesquecíveis" e teimo em recordar o que já devia ter esquecido. Porém, faço um balanço positivo.
Excelente post, mas a imagem... Um momento menos nobre de Tim Burton e de Jack Nicholson...
Abraço
...
foi impossível sobreviver incólume aos anos 80,sem dúvida.
Esta série é do melhor que aqui tens escrito, são todos únicos estes textos. Adoro o tom, de nostalgia e inteligência.
Beijo.
P. S. Já cansa a cona... LOL
Esse também era fresco.
Os «absintos» não estão mal... ;)
Beijinhos, Shezinha.
P. S. O Cesariny era um desbocado, não só na poesia, mas sabia dizer merda com requintes burgueses de boa educação... :)
Eu que o diga! LOL!!!
Beijinhos, Ana.
Mas mesmo assim ainda é o melhor «Batman»...
Abraço, Mr. Lynch.
Pexe, pá, pensei que tinhas esticado o pernil com o gelo da Germanólia... :)
Abraço.
Hello, sweety! ;)
Abraço, amigo Eduardo.
São boas memórias, um bocado excessivas, de 80... :)
Dark kiss, Blood Tears.
E com a malta a envelhecer... só piora! :)
Abraço, Roderick.
Foi uma bela década, sim, Lúcia... ;)
Beijinho.
Não stresses, morceguinha, foi uma piada de gó sénior... eu sei que não ouves Tokyo Hotel... LOL!!!
Dark kiss, アカネ.
Assim tenha tempo, vou curar tua template... ;)
Dark kiss, Bat Trash.
P. S. TRIM...TRIM...TRIM...
Gostei, sim, Akasha.
Dark kiss... ;)
P. S. Bom!
Quando penso nisso... esqueço-me... :)
Beijinhos, Andorinha.
Ao menos, morre-se com foguetes e morteirada... :)
Abraço, Dark Violet.
Foi uma década flashada, lá isso... ;)
Abraço, Ruela.
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