Tuesday, June 30, 2009

CARTA DE UM TENENTE DA WEHRMACHT EM LENINEGRADO

_Dedicado à She, companheira de luta.

_Two young German soldiers, one injured, the other dead (as they advanced into Germany, the Allied soldiers were constantly surprised _at the extreme youth of the enemy forces), 31 March 1945. Foto de arquivo.


«Factos como esses desonram o uniforme alemão. Não é de admirar o crescimento da resistência francesa quando as SS forçam todo o cidadão decente a empunhar armas contra nós!»
Marechal Erwin Rommel; palavras a Hitler na Conferência de Margival, em Junho de 1944, a propósito de atrocidades cometidas pelas SS.


«Querida e estimada Mãe,

as saudades são muitas, de tudo e de todos, até da nossa neve, apesar de rodeado desta, que nos mata. Não há mais esperança mas lutamos, contra os Russos e contra nós, as deserções são muitas, morre-se de pé como uma estátua triste que perdeu as forças e a fé, e as altas patentes que militam no Partido começam a «desaparecer». Vieram para roubar uma Cruz de Ferro e agora, aqui, só morrem Alemães!
Hoje, nós os de Infantaria, recebemos ordem de mudar de uniformes. Muitos dos meus colegas oficiais recusaram-se, mas eu aceitei a ordem, com espírito de dever e orgulho por vestir a mesma farda que os meus soldados! Acho um suicídio cobarde dar uma oportunidade aos atiradores Russos cujo alvo somos nós, os oficiais.
Somos nós os oficiais de baixa patente, os soldados e os sargentos que não desistimos, alguns combatem com pés que já não são seus, que o gelo entregou à morte, e até os SS dos corpos de combate deixaram de ser incomodados com «piropos». Agora somos todos apenas Alemães que esperam a morte.
Não recebemos notícias há muito e não sei quando esta carta chegará. Talvez eu esteja já morto quando a receberes. Ontem matei sete Russos, um em luta corpo a corpo, furei-lhe o coração. Já não sei quem sou, querida Mãe.
Não me esqueças, lembra-te do teu Friedrich, que sempre foi um bom filho, do menino doce que criava pombos e que cresceu para ser um homem vaidoso.

Beijo as tuas mãos, dá saudades aos meus irmãos, especialmente à Frida, por cujo futuro tanto temo.


Do teu filho, que nunca te esquece,

Friedrich,

Oberleutnant,

3 de Janeiro de 1944,
Wehrmacht, Leninegrado.

P. S. Soube por Finlandeses das SS que o meu amigo Finlandês que estudou comigo em Colónia, lembras-te? o Karel, foi morto em combate junto ao Svir. Recusou retirar com o pelotão que comandava e foram todos mortos. Um herói, nunca o esquecerei, com aquela cara de gigante esquimó e o riso franco. Tudo está perdido, querida Mãe.»


.Klatuu Niktos



_Leningrad Blockade (diorama; Museum of the Great Patriotic War, Moscow), Sergey Nemanov, 2006

11 Comments:

Blogger Amoreena... said...

Lindo, maravilhoso... é uma temática que muito me encanta.

Sinto acontecimentos da Segunda Guerra como se eu a tivesse vivido... não entendo bem o motivo.

E sempre achei que os maus não eram tão maus, mesmo tendo certeza da crueldade de alguns. Todos são maus na guerra, não há quem escolha as vítimas.

Mas o amor à pátria e aos ideais são preciosos.

E a foto... fotos como está me fascinam, brincam com os sentidos.

Beijo.

7:22 AM  
OpenID Yashmeen said...

Tive a oportunidade de estudar este período histórico e a conclusão a que chego é que o colaboracionismo me deixa confusa.

12:14 PM  
Blogger biazinha said...

Merecida homenagem...estou certa de que a She além de merecedora, irá gostar.
Beijo grande pra ti painho e outro enorme pra homenageada.

1:07 PM  
Blogger Conversa Inútil de Roderick said...

Muito forte, profunda!
Não deixa ninguém indiferente, uma carta como esta!

2:11 PM  
Blogger Conversa Inútil de Roderick said...

"...do menino doce que criava pombos e que cresceu para ser um homem vaidoso..."
Esta frase não me sai da cabeça!

2:12 PM  
Blogger andorinha said...

Na guerra toda a inocência se perde...
Os soldados são apenas carne para canhão; os generais são muitas vezes os primeiros a abandonar o barco. É o cinismo no seu pior.

"Já não sei quem sou, querida mãe."

Triste, tão triste!
Não há para mim pior morte do que quando deixamos de nos reconhecer.

Beijo*

P.S. Não podias pôr as legendas um bocadito maiores? Lembra-te que há aqui gente da 3ª idade que te lê:)))
Vejo-me negra para as conseguir ler...

10:25 PM  
Blogger Ruela said...

Isn't SHE lucky? ;)

Bela dedicatória.



Abraço.

10:42 PM  
Blogger Sunshine said...

Lindo - Nos livros de história lemos muito sobre o sofrimento judeu e pouco sobre o sofrimento individual de quem tinha que levar com a realidade que Hitler instituio.
Recentemente conheci uma antiga Fort Nazi em Bud na Noruega. Lá conservaram imensas coisas, incluindo um colchão, fardas, propaganda da altura... È impossivel ficar indifferente ao entrar naquele sitio sabendo tudo o que se passou nessa guerra.
Adorei esta carta.

3:31 PM  
Blogger She said...

Contigo é impossível negar a existência de um "específico masculino", nenhuma escritora entenderia a guerra com esta luz trágica de "sofrimento e glória"...

Agradecer-te não é preciso.
Gosto muito de ti, bardo.
Beijo.

9:19 PM  
Blogger She said...

A foto é impressionante, é um relato como uma elegia de Wagner. O pormenor da mão do soldado morto a segurar o seu diário é indescritível, e o olhar do que está vivo.

9:25 PM  
Blogger Ruela said...

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3:03 PM  

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