Friday, July 10, 2009

QUEM DEMANDA SÓ QUER SEM NADA QUERER


_Ossian Awakening the Spirits on the Banks of the Lora with the Sound of his Harp, Gerard Francois, 1801


«[…] E pois entrarom na câmara e virom a mui rica coroa de prata sobre que o mui Santo Vaso estava, nom houve i tal que nom conhocesse que aquele era o Santo Graal; e fincarom logo os geolhos em terra, tão ledos e com tão grão prazer do que viam, que lhes semelhou que nunca haviam de morrer.
Estando eles assi em sa oraçom, virom sôbola távoa de prata um homem vestido de panos brancos, mas, sem falha, o rostro nom lhi podiam ver, ca era de tão grã claridade que os olhos, que mortais eram, nom no podiam ver, ante se envergonhavam, de tal guisa que o lume de cada um nom podia catar maravilha celestial.
O homem, que estava sôbola távoa, assi como vos digo, disse:
– Vinde adiante, cavaleiros compridos de fé e de crença, e haveredes o manjar que tanto desejades. E tu, filho Galaaz, que eu achei mais leal e melhor ca outro cavaleiro, vem diante.
E ele se ergueu e chegou-se à távoa, mas a claridade era tão grande que adur podia ver per u fosse.
E o homem lhi disse:
– Abre a boca.
E ele a abriu; e ele lhi deu hóstia. E assi fez a cada um. Mas bem sabede que nom havia i tal deles a quem nom semelhasse que lhi metiam na boca um homem vivo e nom houve tal que cuidasse que era em terra, mas em céus, onde aveio que houverom tão grã lediça e tão grão prazer que mortal coraçom nom podia pensar.»


Galaaz em Corberic, cap. LXXVI do códice manuscrito nº 2594, existente na Biblioteca Palatina de Viena de Áustria. Publicado por Carlos von Reinharddtöttner, História dos Cavaleiros da Mesa Redonda e da Demanda do Santo Graal, Berlim, 1887; e Augusto Magne, A Demanda do Santo Graal, Imprensa Nacional, 1944.


COMENTÁRIO
Ninguém conhece os nomes com que os convocaram os homens, o mito apaga-os duas vezes: em vivos pela grandeza maior que a vida; na morte porque a glória os rouba de si. Nunca quiseram um rosto, um nome, jamais desejaram a fama, o ouro, o conforto ou a imortalidade numa lápide.

«Cavalo de sombra, cavaleiro monge»!

5 Comments:

Blogger Susn F. said...

Já não se fazem cavaleiros como antigamente. :)

Gostei do Post!

Kiss

11:34 AM  
Blogger Nitrox said...

Esta leitura reenviou-me para 30 anos atrás, no meu primeiro emprego, como guia do museu de Lagos acompanhei muitas vezes o professor Queirós nas suas consultas na biblioteca do museu, onde com espanto e curiosidade absorvia os textos arcaicos que ele me ensinava a ler com tamanho prazer.

Obrigado pela viagem no tempo, ler não é só absorver o texto, é sobretudo voarmos no nosso mundo onírico usando as palavras como asas.


Porra! Estou mesmo inspirado!

Fica Bem!

3:52 PM  
Blogger Morgana La Folle said...

Quem demanda só quer sem nada querer.

Estas palavras - tão lindas, tão verdadeiras! -, são um post... e longo!

O excerto é belíssimo.

E o teu comentário é de cavaleiro monge ;)

Resumindo: post perfeito.

Dark kiss*

9:32 PM  
Blogger Spidraphile said...

Simplesmente perfeito! :)

9:54 PM  
Blogger andorinha said...

Subscrevo em absoluto as palavras da Morgana.
Não vou usar outras se estas exprimem o meu pensamento na perfeição:)

Beijo*

10:47 PM  

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