Monday, August 17, 2009

ABSINTHE, 7ª DOSE *


___.Mikhail Aleksándrovich Bakunin (Михаил Александрович Бакунин), Premukhimo, Rússia, 30 de Maio de 1814 – Berna, Suíça, 1 de Julho de 1876


Caracóis e cerveja, na esplanada dentro do Estio; estávamos quase a salvar o mundo... e eis que um grande amigo meu, coerente anarquista, contra-ataca a divagação política:

– Entre nenhum Estado e um Estado fascista, preferiria um Estado fascista!

A riposte, a um comunista e um social-democrata, deixou-me em recolhimento mental, até porque não sou apreciador de gafanhotos de Super-Bock.

A anarquia não é um regime político: é um patamar de consciência individual. O indivíduo, no sentido ontológico profundo, será sempre um ser excepcional, vitimado pela turbamulta e por todos os grupos, com interesses mundanos definidos, que dependem daquilo que os sociólogos (em símile com a meteorologia) chamam «pressão social». Há um século Friedrich Nietzsche foi brilhante a diagnosticar a baixa popularização política do darwinismo: na verdade, não é a excepção que sobrevive mas, sim, a mediania. A excepção, seja o génio ou o monstro, é aniquilada pelo homem médio.
Hoje, bebemos cerveja, dentro deste deserto nihilista, ao sol. Enquanto esperamos pela realização colectiva da utopia de um só, de facto, apenas com o Estado contamos. Cabe-nos, antes, realizar o mais justo dos Estados possíveis e combater toda a forma de alienação, que é sempre o esvaimento do ser-por-si para a terra-de-ninguém, política e ética, da onticidade de uma qualquer multitude acéfala.



* Texto também publicado no blogue O Bar do Ossian .



«CONFISSÃO», MIKHAIL BAKUNIN (excerto final da última carta)

Majestade Imperial, Muito Graciosa Majestade, [o Czar Alexandre II, que sucedera ao pai, Czar Nicolau I, o Czar de Ferro (1796 – 1855; imperador da Rússia entre 1825 e 1855) ao qual toda a súplica, que a «Confissão» é, foi dirigida]

[…]
O que Vos poderei dizer ainda, Senhor? Se pudesse recomeçar a minha vida, conduzi-la-ia de forma diferente, mas, ai de mim!, o passado não regressa! Se pudesse apagar o meu com actos, suplicaria que me concedessem essa possibilidade: o meu espírito não recuaria perante as provações de um serviço expiatório; ficaria feliz por apagar os crimes com o meu suor e o meu sangue. Mas as minhas forças físicas não correspondem de modo algum à força e frescura dos meus sentimentos e dos meus desejos; a doença tornou-me incapaz de tudo. Embora não seja velho pela idade – tenho quarenta e quatro anos – os últimos anos de reclusão esgotaram as minhas últimas forças, quebraram-me o resto da juventude e da saúde; pareço um velho e sinto que não me resta já muito tempo para viver. Não lamento uma vida sem actividade nem utilidade; só existe um desejo em mim: respirar uma última vez a liberdade – olhar para o céu claro, para a frescura dos campos –, rever a casa de meu pai, debruçar-me sobre o seu túmulo e, consagrando o resto dos meus dias à minha mãe torturada pelo destino do seu filho, preparar-me dignamente para a morte.
Perante Vós, Senhor, não me envergonho de confessar a minha fraqueza; confesso-o abertamente, a ideia de morrer na solidão e na reclusão apavora-me – esta ideia assusta-me mais do que a própria morte –; e do mais profundo do meu coração, do mais profundo da minha alma, suplico a Vossa Majestade que me liberte, se for possível, deste castigo supremo e o mais atroz.
Qualquer que seja a sentença que me reserve o futuro, desde já a ela me submeto resignadamente, pois ser-me-á feita justiça, e ouso esperar, Senhor, que me será permitido, pela última vez, exprimir perante Vós os sentimentos de profundo reconhecimento para com Vosso Pai de Inesquecível Memória, e perante Vossa Majestade, por todas as graças que me forem concedidas.

Um criminoso suplicante,
Mikhail Bakunin

14 de Fevereiro de 1857
.

In Confissão, Ed. Arcádia, 1ª edição, Março de 1975, Lisboa, pp. 176-177, tradução de Elisa Teixeira Pinto



NOTA: Bakunine foi preso e condenado à morte em Dresden, em 1849, acusado de liderar (o que é falso, apenas lutou ao lado de Richard Wagner, e muitos outros, nas barricadas) o Levantamento de Maio e também por ter participado na rebelião checa de 1848; mas acabaram por o entregar ao governo Russo, tendo ficado primeiro detido em São Petersburgo, na fortaleza de Pedro-e-Paulo, e depois transferido para a fortaleza de Schlüsselburg, sita na cidade do mesmo nome, nos arredores de São Petersburgo; a fortaleza ergue-se num ilhéu rochoso, na confluência do rio Neva e do lago Ladoga. Nestas fortalezas passa um total de 8 anos.
A súplica de Bakunin nunca foi atendida e é «internado» (ou é enterrado?) na Sibéria em 27 de Outubro de 1857, onde ficará prisioneiro mais 4 anos. Em 17 de Julho de 1861, evade-se no porto de Olga do navio de guerra russo Strelok, que o levava para Kastri, e pede asilo ao comandante do navio norte-americano SS Vickery. A 6 de Agosto chega a Hakodate, na ilha mais a norte do Japão, Hokkaidō, e daí parte para Yokohama, onde, por acaso, encontra um dos seus companheiros de armas de Dresden, o pintor, escritor e viajante Wilhelm Heine (cuja família o pai de Wagner tinha em grande estima; a seguir ao Levantamento de Dresden, Wilhelm Heine tinha sido auxiliado por Alexander von Humboldt na fuga, em 1849, para Nova Iorque), que o ajuda a chegar aos Estados Unidos da América.

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14 Comments:

Blogger Mariana Soffer said...

Intesting the text about anarchy and nihilism, I was thinking that there are so many people that do not understand the different between the 2, I do not blame them dough, reading nizche to understand the second term is pretty tough, and I guess anarchists are not very popular nowadays.

It is Beautifull the second text, really well written, given my lame appreciation of portuguese literature.

Thanks and take care

8:49 AM  
Blogger DarkViolet said...

http://conjuradosxxi.blogspot.com/

:)

9:46 AM  
Blogger She said...

Só há dois poderes: o do lobo solitário e o da alcateia. Bakunine foi um grande homem, acho que não vão perceber que tu gostes dele mas eu sei que todos os solitários sonham com uma alcateia de solitários.

O teu amigo deve ser uma pessoa muito interessante.
Beijo.

4:29 AM  
Blogger She said...

Executar homens como ele é um crime contra a civilização mas executar idiotas talvez não seja, só contra os próprios mas isso é moral não é política.

4:33 AM  
Blogger She said...

Os monárquicos enlouqueceram? ou já não há diferença?

4:34 AM  
Anonymous Anonymous said...

Primeira vez que visito o seu blog e gostaria de parabeniza-lo.

Interesante as reflexões.
Pretendo conhecer um pouco mais do movimento anarquista principalmente de sua participação histórica na luta dos trabalhadores.
Se me permite um pequena sugestão: aumentar as letras das notas logo abaixo das fotos e autores.

11:28 PM  
Blogger Val Du said...

Li o texto e percebi que dá p/ fazer um poema com as falas do homem.

Isso chamou minha atenção:

"o passado não regressa"

"só existe um desejo em mim:
respirar uma última vez a liberdade"

De fato não conhecia esse Mikhail Bakunin, sempre somos ignorantes em alguma coisa, mas gostei de vir aqui e ler sobre ele.

Até mais.

12:20 PM  
Blogger andorinha said...

Excelente o teu texto, já me obrigou a pensar.

Quanto a Bakunin realço esta frase:"Não lamento uma vida sem actividade nem utilidade;..."

Só um grande homem a proferiria.
Mas há algo na carta que me deixou intrigada e que não entendo.
Todo o tom de súplica, de humilhação quase, renegando todo o passado, porquê?
Por medo da prisão, da morte ele abdicava de tudo o que tinha sido a sua vida?

Pode-me estar a escapar algo, mas confesso que não entendi...

Beijo*

P.S. Aguardo esclarecimento, escusado será dizê-lo:)

10:17 PM  
Blogger andorinha said...

P.P.S. Como vês, o meu Verão não é composto só de galderice...

:)))))

10:20 PM  
Blogger MARTHA THORMAN VON MADERS said...

Gostei de ficar aqui lendo...saboreando cada palavra...

10:22 PM  
Blogger Vieira Calado said...

Conhecia um pouco da vida e pensamento deste homem,

mas com estes textos fiquei mais rico.

Abraço

9:57 PM  
Blogger bat_trash said...

Pegando carona no comentário da She: somos da mesma matilha, irmão. Cada vez mais estou certa disto.
Amo tu, painho!
Painho ou irmão? Os dois, oras!
Beijo.***

3:28 AM  
Blogger Pedrasnuas said...

OBRIGADA PELA VISITA.SÓ O DESCOBRI AGORA...VOLTAREI COM MAIS TEMPO PARA LÊ-LO

12:10 AM  
Blogger yulunga said...

Ao contrário de alguns conheço pouco sobre a vida do senhor.
Sei por alto que foi um homem dado a filosofias e impulsionador, digamos assim, da anarquia.
Mas posso por a imaginação a trabalhar (para não dizer especular).
Dizes, e penso que muitissimo bem até porque concordo, que:
"A anarquia não é um regime político: é um patamar de consciência individual."
Não sei se muitos, se poucos se mantêm nesse patamar uma vida inteira. Julgo eu que alguns acabam por sair dele.
Também disseste que:
"A excepção, seja o génio ou o monstro, é aniquilada pelo homem médio."
De novo absolutamente de acordo.
Não faço idéia se ele foi génio ou monstro. Provavelmente foi as duas coisas aos olhares de pessoas diferentes.
Mas talvez essa carta, que me parece ter um bocadinho de catarse, nos mostre que ele saiu desse tal patamar, e como homem médio em que acabou por se tornar aniquilou-se a ele próprio.

A minha "teoria" é esta.
Mas como tenho a mesma dúvida que a Andorinha, se pudesses esclarecer era muito bom.

12:29 AM  

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