BREVE COMENTÁRIO A FERNANDO PESSOA NO CONTEXTO DO RACISMO
_Fernando Pessoa, David Levine, 1972
«Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.»
[Hoje, este é o tipo (medroso, de ideias curtas e boateiro) de Português que protesta contra os imigrantes, enquanto faz fortunas a subempregá-los, explorando-os e provocando fluxos migratórios desequilibrados.]
«Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.»
[Hoje, este é o tipo cínico de Português que, na vida pública, respeita o politicamente correcto e depois, à socapa, pisca os olhos aos totalitarismos alarves.]
«Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projectam a sua fé de que a família se não extinguisse. […]»
[Hoje, este é o tipo de Português que estabelece relações de integração inteligentes com as minorias étnicas, acolhendo-as e incentivando-as – em todos os domínios da vida pública e da cultura – a sentirem-se Portugueses e a defender um Portugal com futuro, sem negar nenhum aspecto da sua História.]
Fernando Pessoa, in Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução organizada por Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p. 6.


2 Comments:
Muito bem escrito e muito bem apontado por si, eu felizmente creio encontrar-me entre os ultimos!
Um abraco de amizade monarquica.
Não duvido, meu caro.
Outro abraço de amizade monárquica!
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